Aquilo que eu vi, ouvi e – principalmente – divaguei:
Qual a imagem o design de moda brasileiro no exterior? Como desenvolver uma identidade de moda no Brasil? Estes questionamentos serviram de base para a segunda edição do projeto Design Mais que ocorreu ontem a noite no Moinhos Shopping, em Porto Alegre. Participaram do debate os designers Mauro Slomp e Luiz Eduardo Siqueira Campos, além de Aldine Paiva, editor da revista L’Officiel Brasil. A mediação ficou por conta da jornalista Queli Giuratti.
Muito se falou em identidade brasileira, e todos foram unânimes ao declarar o conceito como “caricato”, desdenhando a reprodução de bananas nas vestimentas – talvez por se tratar de um estereótipo antigo, em voga nas antigas marchinhas carnavalescas de Carmem Miranda. Em contrapartida, os convidados elogiaram os criadores que utilizam rendas, casca de coco e castanhas como matéria prima de suas criações.
Coco, Castanha ou Banana? A troca da fruta significaria o refinamento de uma nova autofagia nacionalista? Acho duvidoso. Há anos Andy Warhol já alçou nossa renegada banana a patamares mais elevados. A referência me parece muito mais vanguarda 60’s do que adorno carnavalesco.
Ainda sobre criação e identidade criativa: Luiz Eduardo Siqueira Campos contou que foi contratado para atuar como diretor criativo da Victor Hugo, no intuito de dissociar a marca da estrangeira Louis Vuitton.Façanha na qual parece ter se saído muito bem. Quem já era adolescente nos anos 90 deve lembrar-se das réplicas de LV, carimbadas por “VHs” e com precinhos acessíveis (pero no mucho!). Desde então, as inspirações da marca já não parecem tão explícitas.
Ainda, em relação à valorização das logomarcas ele citou alguns exemplos:
  • A caneta Mont Blanc é carregada no bolso da camisa e não dentro da pasta – lugar onde deveriam ser guardadas;
  • Bulgari é o relógio mais cobiçado do mundo, mas não o melhor. Seu principal atrativo é o logo gigante, que aparece mesmo à distância;
  • Prada, Fendi e Gucci investindo em sapatos e bolsas de jaccard com padrões de logomarca se tornaram representação de status social;
  • O sapatênis Prada com uma etiqueta aparente na parte de trás virou febre entre os homens.
O designer frisou a (óbvia) inexistência de criação em todos os itens acima. Todavia, explicou que tais produtos existem – e são campeões de venda - porque o mercado pede isso. A mediadora do debate completou perfeitamente o raciocínio: “as marcas substituem com competência o sobrenome de quem as usa”.
Mas, o que o público deseja afinal? Criação ou status?
E aquela história de novo luxo como handmade exclusivo? O discurso é excelente, tipo um DIY de riqueza e poder. Mas a bolsinha de tecido super bacana feita pela sua amiga habilidosa e criativa não deve custar mais de 50 reais, montante que – mesmo multiplicado por 100, 200, 300 – ainda não tem expressão alguma no mercado. E no fim das contas, por mais linda que seja (e ainda que exclusiva), sua bolsa artesanal não figura em nenhuma wishlist da Vogue e tampouco foi clicada na mão de alguma it girl que mereça um get the look na blogsfera modística.
Luiz reforçou que a principal função do designer é criar necessidades, é tão somente “money maker”! Porém, esse papel criativo não pareceu cabível ao criador brasileiro. A conclusão é que os desejos de consumo raramente são criados em terra brasilis e a grama do visinho nunca nos pareceu tão verde. O mercado espera que algum estilista consagrado diga que determinado produto é bacana, para que então vire objeto de cobiça. A partir dessa premissa, nossa identidade dependeria do acaso! Vai que damos sorte e Marc Jacobs resolve fazer sutiãs-coco-terra-samba-style na coleção de beach wear, já pensou? Depois das novas (e medonhas) babuchas Chanel terem voltado ao imaginário consumista, eu já não duvido de mais nada. Biquini-coco pelo menos tem DNA made in brazil, acho justo.
Na contramão desse capitalismo selvagem, Aldine Paiva (questionado por Gabriela Casartelli) – encontrou uma função paralela para a criação-fazedora-de-dindin:
Design é também um manifesto social. A indumentária também é mídia e através dessa premissa é possível criar outros caminhos.
E nesse caso, a bolsinha da sua amiga parece manifestar muito mais do que a repetição das iniciais de gente que (quase) ninguém conhece. Afinal, quem é Luis Vitão?
Yes, nos queremos bananas!